Relatório recente do V-Dem Institute, entidade internacional vinculada à Universidade de Gotemburgo, aponta que os Estados Unidos vêm passando por um processo acelerado de deterioração democrática durante o atual governo de Donald Trump. De acordo com o estudo, o país perdeu, pela primeira vez em mais de meio século, o status de democracia liberal. Em apenas um ano, a pontuação dos Estados Unidos caiu significativamente, resultando na queda da 20ª para a 51ª posição no ranking global de qualidade democrática, entre 179 nações avaliadas.
O relatório destaca que o atual governo tem promovido uma concentração expressiva de poder no Executivo, acompanhada do enfraquecimento de mecanismos institucionais de controle e equilíbrio. Entre os principais pontos levantados estão a politização de órgãos públicos, pressões sobre o Judiciário, além de críticas a ataques direcionados à imprensa, à academia e a liberdades civis. Segundo a análise liderada por Staffan Lindberg, o ritmo de regressão democrática observado nos Estados Unidos é considerado elevado, superando, em velocidade, processos semelhantes registrados em países como Hungria, Turquia e Sérvia. O estudo indica que medidas adotadas ao longo de um ano teriam produzido efeitos institucionais comparáveis a mudanças implementadas ao longo de vários anos nesses países.
O documento, intitulado “Desmantelando a era democrática”, aponta ainda que, no atual mandato, houve aumento significativo na edição de decretos presidenciais — 225 no período analisado — em contraste com um número reduzido de leis aprovadas pelo Congresso, o que indicaria um deslocamento do protagonismo legislativo para o Executivo. Além disso, o relatório menciona o enfraquecimento de instituições como o Congresso e a Suprema Corte, bem como decisões que, segundo os pesquisadores, podem impactar a legitimidade institucional, incluindo concessões de perdão presidencial relacionadas a eventos anteriores.
O estudo também registra retrocessos em indicadores ligados a direitos civis e liberdade de expressão, apontando que esses níveis se encontram entre os mais baixos das últimas décadas. Por outro lado, os indicadores eleitorais não sofreram alterações no período analisado, em razão da ausência de eleições nacionais recentes. Diante desse cenário, o relatório destaca que as próximas eleições legislativas de meio de mandato serão um momento relevante para avaliação da estabilidade democrática no país.
O levantamento reacende o debate internacional sobre os limites institucionais do poder Executivo e a importância da preservação de mecanismos de controle para a manutenção de regimes democráticos.
